Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, Charles Brackett, D.M. Marshman J.
Origem: Estados Unidos
Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson
Ano de lançamento: 1950
Roteiro: Billy Wilder, Charles Brackett, D.M. Marshman J.
Origem: Estados Unidos
Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson
Ano de lançamento: 1950
Duração: 110 minutos
Se o cinema fosse um rio, assistir a Crepúsculo dos Deuses seria como acompanhar o seu percurso. Esse rio cinematográfico nasceria nos filmes mudos, onde as suas grandes estrelas aparecem em pedestais divinos, resplandecendo s margens plácidas. Porém, no seu curso desaguaria um braço que modificaria seu rumo, arremessando a sua correnteza a um delta sonoro, que deixaria para trás grande parte das divindades de antes, afogadas pelo impacto deste cruel braço sonoro. O que vemos em Crepúsculo dos Deuses é, assim, a carcaça destas estrelas, sofrendo ao ver o rio seguir seu curso natural rumo ao infinito.
A história se inicia com um roteirista de segunda classe, Joe Gillis (William Holden), narrando sua própria morte enquanto vemos seu corpo flutuando em uma piscina. O enquadramento feito de dentro da piscina, mesclando a água com o azul do céu, nos dá uma sensação incômoda de liberdade e compaixão pelo homem que conta sua história. A partir daí, voltamos no tempo para acompanhar o seu fracasso como roteirista, devedor, com roteiros copiados e ausente de qualquer perspectiva, a não ser abandonar Hollywood.
Até que o pneu de seu carro fura na Sunset Blvd. (nome original do longa). Joe é rápido ao achar uma mansão para deixar seu carro, onde irá conhecer a ex-estrela de filmes mudos, Norma Desmond (Gloria Swanson), que ali vive com seu fiel mordomo Max von Mayerling (Erich von Stroheim). Ao saber que Joe é escritor, Norma o “prende” em sua casa, utilizando-o para reescrever uma história que ela mesma trouxe à vida. Joe aceita o cárcere, usufruindo da vida boa e fácil, cheia de presentes e dinheiro, que a senhora consegue lhe oferecer.
É interessante notar como praticamente cada detalhe de Crepúsculo dos Deuses é metafórico e ao mesmo tempo realístico. O carro da ex-estrela é um modelo antigo, já completamente fora de moda. A casa onde Norma e Joe se “prendem” é antiquada, anacrônica, repleta da ostentação exagerada do período de ouro do cinema mudo (aliás, é impressionante o excelente trabalho da Direção de Arte do filme, compondo a mansão com uma riqueza de detalhes inigualável; o trabalho merecidamente lhes rendeu o Oscar). Por mais que o escritor tenha acesso livre para sair, ele vê seu casaco preso na maçaneta ao tentar passar pela porta em um determinado momento, representando sua amarração com aquele ambiente, aquela mulher e aquela época, todos parados no tempo.
Por outro lado, o real e a metáfora se confundem na correnteza metalingüística do filme: os amigos de Norma, chamado de “bonecos de cera” por Joe, são ex-estrelas do cinema mudo da vida real, Buster Keaton, Anna Q. Nilsson e H.B. Warner. Até o apelido utilizado por Cecil B. De Mille para chamar Norma (“little fellow”) é o mesmo que o diretor utilizava para chamar a atriz Gloria Swanson. Porém, o brilhantismo maior desse binômio encontra-se na figura do mordomo Max von Mayerling. Colocado como um dos maiores diretores da história da película (ao lado de D.W.Griffith e Cecil B. De Mille), o criado é representado por Erich von Stroheim, um diretor expoente do cinema mudo da década de 20. Em determinado momento, Norma e Joe sentam no cinema particular da mansão para ver um filme projetado por Max. A película é na verdade “Queen Kelly” (1929 – curiosamente já lançado após o advento do som, em 1927), dirigida por Stroheim e estrelada por Swanson. Ali personagens e pessoas são uma coisa só, revelando toda a genialidade do roteiro (também Oscarizado) e de seu diretor Billy Wilder.
Por sinal, são justamente as atuações brilhantes de Strohein e Swanson que solidificam ainda mais o filme. Esta última está perfeita, sem ultrapassar o limiar da loucura estereotipada, conseguindo passar a sensação ideal de uma mulher que se grudou a um tempo e não quer aceitar o novo, o progresso tecnológico. Holden também está muito bem, levando de maneira competente a falsa culpa que tem por aceitar usufruir da vida boa que leva junto da ex-estrela e seu conflito frente um mundo de produção criativa com a aspirante Betty (Nancy Olson). Aliás, Betty é para mim o único ponto fraco do filme, uma personagem confusa e promíscua demais, porém que serve como uma excelente metáfora para a visão de Wilder do que seria o cinema da época frente o cinema de Norma Desmond.
Aliás, é impressionante notar que esta idéia de Wilder de para onde a corrente do rio estava seguindo, apontou para a maneira como Hollywood se comporta até hoje, permeando boa parte das obras ali produzidas. Infelizmente, é justamente por causa dessa temporalidade e especificidade do filme, que percebo que ele acabou não tomando proporções ainda maiores, sendo não tão conhecido pelo público geral (não-cinéfilos). De qualquer maneira, nas palavras de Norma, em uma das citações mais famosas do cinema: “Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos”. E de fato, perto de Crepúsculo dos Deuses, poucos são os filmes que não ficam pequenos.
Vale 5 ingressos.
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