Direção: Chico Teixeira
Roteiro: Chico Teixeira, Júlio Pessoa, Sabina Anzuategui e Marcelo Gomes
Elenco: Carla Ribas, Berta Zemel, Vinicius Zinn, Ricardo Vilaça, Felipe Massuia, Zé Carlos Machado
Origem: Brasil
Elenco: Carla Ribas, Berta Zemel, Vinicius Zinn, Ricardo Vilaça, Felipe Massuia, Zé Carlos Machado
Origem: Brasil
Ano de lançamento: 2007
Duração: 90 minutos
Há tempos sabemos que a “família margarina”, aquela família sorridente e feliz, tomando todos juntos o seu farto café da manhã, só existe mesmo em comerciais. Não apenas as pessoas não têm tempo para isso, dada a correria do trabalho/escola, como sabemos que essa felicidade excessiva é completamente falsa, pois as famílias normais estão recheadas de problemas e intrigas internas, o que às vezes chega a dilacerar o convívio diário. Contudo, essa “casca de perfeição” permanece presente tanto em nosso subconsciente – e vemos a necessidade de externar mentiras para encobrir a realidade – quanto nas produções cinematográficas brasileiras, que raramente abordam a família sobre um ponto de vista mais realístico e denso.
O filme de estréia de Chico Teixeira é bastante feliz, portanto, ao retratar de maneira firme e sincera as relações de uma família de classe médio-baixa paulistana, tanto internamente quanto frente a seus amigos/colegas. A mãe, Alice (Carla Ribas), é uma manicure de um salão de beleza no centro de São Paulo, cuja melhor cliente, Carmen (Renata Zhaneta), é uma mulher que insiste em ostentar sua “felicidade” conjugal, tal como ostenta seu carro importado, dado pelo seu marido. As duas conversam sempre sobre o dia a dia familiar, ambas tecendo comentários do quanto são “felizes”, “satisfeitas sexualmente” ou mesmo expondo suas intimidades.
O marido de Alice, Lindomar (Zé Carlos Machado), faz o mesmo ao conversar com um passageiro em seu táxi. Relata que está feliz com seu matrimônio, pois ao chegar a sua casa tem “comida quentinha e uma mulher cheirosa” lhe esperando. Contudo, uma das belezas do filme está justamente em nos revelar a “verdade” por trás destas conversas, não em tom pejorativo ou cômico, mas realista, nos deixando interpretar por conta própria. Alice na verdade está em um casamento que já não se sustenta mais, e Lindomar, machista típico, é ausente e infiel (aliás, pedófilo, pois trai com adolescentes). A relação dos dois não é de amor, nem de sexo, mas sim um convívio mútuo no mesmo espaço. Praticamente não há diálogos entre ambos, quem dirá demonstrações de afeto.
Isso se reflete na dinâmica entre seus filhos, que buscam viver suas vidas à revelia dos problemas de seus pais. Lucas (Vinicius Zinn), o irmão mais velho, é a imagem de seu pai, porém mais bruto e folgado. É michê nas horas vagas (uma inserção inútil, por sinal, que não é desenvolvida no filme, sendo para mim um ponto falho do roteiro) e briga constantemente com Edinho (Ricardo Vilaça) o irmão do meio. Este, por sua vez, faz pequenos furtos – em especial da avó protetora da casa, Dona Jacira (Berta Zemel) – para comprar os objetos que deseja e que não recebe de seus pais. Já Junior (Felipe Massuia), o irmão mais novo, se vê perdido em meio a este turbilhão familiar, buscando apoio e carinho nos irmãos, em especial o mais velho, com quem se identifica bastante.
O grande trunfo destes personagens é justamente a sua ausência de maniqueísmos ou mesmo de estereótipos. Lucas, apesar de grosso, em dado momento auxilia carinhosamente sua avó a deitar-se. Edinho rouba da avó, porém quando pode lhe devolve o dinheiro que havia furtado. Até mesmo Alice, mulher traída e desrespeitada pelo marido, também trai em busca de prazer. Ninguém é mau nem bom apenas; são todos pessoas como nós, e exatamente por isso nos identificamos com estes personagens, como se fossemos voyeurs de nós mesmos.
Essa sensação de voyeurismo se amplia com a linguagem naturalista empregada por Chico Teixeira. Em praticamente todos os momentos, temos a câmera parada em um canto de algum cômodo da casa, deixando com que os atores interpretem naturalmente à frente dela, com pouquíssimos cortes e sem maiores movimentações. O resultado tem um efeito duplo: salienta a proximidade com os personagens, criando uma ambiência familiar perfeita, natural e íntima (reforçada pelo estoicismo da direção de arte). Porém ao mesmo tempo, gera o tédio da casualidade, com longas cenas em que a única ação real é simbolizar a intimidade familiar e forçar o público a contemplar o cotidiano da casa. Vez ou outra, a câmera chacoalha, despertando-nos da invisibilidade da filmagem. Por vários momentos, senti que faltou zelo com o trabalho de gravação, independente do naturalismo empregado.
Outro aspecto salientado pelo estilo de Teixeira é a interpretação dos atores. Neste ponto, quem se destaca fortemente é Carla Ribas. A atriz desenvolve sua Alice de maneira impecável, demonstrando durante toda a película uma emoção e complexidade que merecem muitos aplausos, desde os pequenos detalhes (o olhar sofrido, por vezes distante, pensativa), até a incrível cena final, em que aparta a briga de seus filhos (cena esta sem cortes), em um acesso de histeria que me fez ficar sem respirar ao longo de toda a cena.
A Casa de Alice é, assim, um filme naturalista, intenso e contemplativo. É um filme de personagens, que brigam, mentem, sorriem, choram, na tentativa em vão de dizer a si próprios que tudo vai bem, mesmo quando a realidade se apresenta de maneira inversa. Na vida, fazemos isso o tempo todo, sem perceber, e isso nos é tão comum que no filme vemos que aquelas cenas qualquer um de nós poderia protagonizar. Ao terminar dos seus 90 minutos, sentimos que assistimos a nós mesmos e – satisfeitos ou não com essa sensação – é essa a missão a que Chico Teixeira se propôs.
Vale 4 ingressos.
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Veja também a crítica de Rodrigo Serrano.
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