domingo, 3 de junho de 2012

Há Tanto Tempo Que Te Amo (2008)


Nome original: Il y a Longtemps que Je T'aime
Direção: Philippe Claudel
Roteiro: Philippe Claudel
Elenco: Kristin Scott Thomas, Elza Zylberstein, Serge Hazanavicius
Origem: França
Ano de lançamento: 2008
Duração: 117 minutos



Ser preso e ter minha liberdade cerceada é possivelmente um de meus maiores temores - e diria que de muitas pessoas que conheço. A própria ideia do aprisionamento já me causa arrepios, o que me faz geralmente apreciar bastante aqueles filmes que conseguem expor de maneira mais honesta, emotiva e artística, esta sensação de enclausuramento punitivo que tanto mexe com nossa mente. Combinar isto com a culpa perseguidora do crime de tirar a vida do próprio filho seria um mote preciso para uma película grandiosa sobre o tema. Seria, repito, pois infelizmente "Há Tanto Tempo Que Te Amo" não o é.

Filme de estreia do Professor de Literatura Philippe Claudel, conta a história de Juliette Fontaine (Kristin Scott Thomas), recém-saída da cadeia, onde passou 15 anos por assassinar seu único filho. Sua irmã, Léa (Elza Zylberstein) busca-a na prisão e recebe-a em sua casa, para viver com sua família. Esta família, por sinal, é um caldeirão de misturas étnicas ("Uma típica família Benetton", nas palavras de Léa, se referindo ao posicionamento da marca de roupas, United Colors of Benetton), com o pai, Luc (Serge Hazanavicius), de ascendência polonesa, o avô mudo (Jean-Claude Arnaud) de origem russa, e duas filhas vietnamitas. Só que isso não acrescenta em nada para o filme, portanto não esperem reflexões mais profundas sobre a diversidade étnica, pois elas simplesmente não existem.

Não existem, pois o tema central do filme é Juliette. E neste ponto o filme tem um de seus poucos acertos. A ex-presidiária fala pouco durante todo tempo, sendo fria e solitária, claramente ainda sofrendo com o peso do enclausuramento pelo qual permaneceu durante tempo, física e psicologicamente. A atriz Kristin Scott Thomas faz um trabalho excepcional neste sentido, transmitindo muito somente com seus olhos, sua expressão, seu caminhar sem vida e sem propósito, praticamente por inércia. E mesmo nos momentos próximos do término do filme, quando sua vida começa lentamente a adquirir um novo sabor, seu olhar se altera para um brilho tênue, ainda nublado por todo o sofrimento pelo qual passou.

Contudo, a obviedade com a qual os acontecimentos pós-prisão vão acontecendo com Juliette joga pelo ralo o belíssimo trabalho da atriz. Vemos ali todos os clichês que conhecemos: o empregador que dispensa por conta do crime cometido; a assistente social que pensa que "compreende" tudo, porém fala muito mais do que pode fazer; e até mesmo a imbecilidade daqueles que não possuem tato para entender/ter compaixão (como Gérard, o amigo do casal). É claro que neste caso os clichês são de fato a realidade de um ex-presidiário, porém é bem diferente assimilar estes fatos e inseri-los de maneira à refletirmos sobre a crueldade da inserção destas pessoas de volta na sociedade. O filme, por exemplo, peca ao mostrar a conquista do emprego como algo rápido e tranquilo, passando por apenas uma rejeição ao chegar à conquista final. Faltou a Claudel aqui, qualidade técnica para contar uma história cinematográfica, abrindo mão de sua arte literária.

Aliás, do ponto de vista técnico o filme também não chama a atenção. Seu trabalho de som é fraco, sem nenhum atrativo maior. O trabalho de maquiagem e figurino até acerta ao mostrar Juliette sem maquiagem, despida de qualquer vaidade, porém parece estender isso para o resto do elenco. O único aspecto que de fato se destaca é a fotografia, fazendo closes muito competentes, que trazem mais emoção à tela, como na belíssima cena em que Léa recebe a notícia de seu amigo médico sobre o filho de Juliette, com a câmera se aproximando de seu rosto à medida em que sua filha recitava um trecho de "O Pequeno Princípe", justamente sobre o sentimento da perda.

Esta filha maior, entretanto, P'tit Lys (Lise Segur) foi uma das minhas maiores irritações ao longo de todo o filme. Todas as vezes que ela abria a boca, soltava alguma frase que não condizia com o fato de ser uma criança de somente 8 anos. Sua personagem é incongruente, forçando uma "fofura pueril" que mais soa como a realidade distorcida de alguns pais, que insistem em "adultizar" suas crianças, achando isso perfeitamente normal. O auge é quando a mesma pergunta para sua mãe e Juliette se elas "após irem ao  restaurante iriam sair para dançar". Oras, ela é uma criança, não deve saber o que os adultos fazem quando saem para se divertir. Ponto negativo para Claudel que não apenas não sabe dirigir uma criança, como não sabe criar personagens infantis.

Essa inabilidade, o diretor e roteirista mostra também na sua cena final. Depois de todo o filme manter escondida de maneira brilhante a verdade por trás da morte que condenou Juliette, somos, infelizmente, levados a receber uma explicação longa e desnecessária sobre como e porquê a mãe tomou tal atitude. O que era para permanecer na imaginação dos espectadores, criando múltiplas interpretações, se encerra por si só, numa tentativa desesperada de dar humanidade e razão ao sofrimento daquela mulher. Ao subir os créditos, fica a sensação de que o filme poderia ter sido ótimo, mas acabou sendo um fracasso, em que a reflexão deu lugar a uma história rasa, com uma atriz excepcional. O Cinema tem dessas coisas.

Vale 2 ingressos.

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Veja também a crítica de Rodrigo Serrano


terça-feira, 29 de maio de 2012

SE7EN (1995)

Direção: David Fincher
Roteiro: Andrew Kevin Walker
Elenco: Morgan Freeman, Brad Pitt, Gwyneth Paltrow, R. Lee Ermey, Kevin Spacey
Origem: EUA
Ano de lançamento: 1995
Duração: 127 minutos





*Contém Spoilers*


Já na incômoda abertura do filme, somos preparados para o clima que virá em seguida. A história é ambientada em uma cidade dos EUA, a qual o nome nunca é mencionado, assim tornando os fatos universais.  O ambiente é escuro e caótico, chove o tempo todo, passando uma sensação incomoda para o expectador.

O filme nos apresenta sutilmente seus personagens, Somerset é um velho detetive, culto, cansado e prestes a se aposentar que se depara com uma nova e complicada investigação quando chega a seu distrito policial o jovem e empolgado David Mills, que em pouco tempo de tela se auto intitula como “Serpico” à sua esposa Tracy (Gwyneth Paltrow), assim se revelando um policial com gana de exercer sua profissão da melhor maneira possivel, do tipo incorruptível (para quem não se lembra, Serpico é um policial incorrupto interpretado por Al Pacino em um filme 1973 de mesmo nome dirigido por Sidney Lumet).

Logo no início do filme Somerset é chamado para averiguar uma ocorrencia e se depara com um homem obeso morto, seu rosto afundado em um prato de macarrão, ele está todo amarrado, de forma a se chegar a conclusão de que aquela morte fora um assassinato. No dia seguinte, outra vitima é encontrada e no chão há a palavra “Cobiça” escrita com sangue. Somerset volta ao local do primeiro crime e descobre que havia a palavra “Gula” escrita com gordura na parede, assim deduz que esses crimes são frutos de um serial killer (assassino em série) e o mesmo se baseia nos 7 pecados capitais, gula, cobiça, luxuria, inveja, ira, preguiça e vaidade.

Somerset segue um caminho diferente de uma investigação comum e vai à biblioteca pesquisar os livros em que os sete pecados são citados, cita “A Divina Comédia”, “Paraíso Perdido” e “Os Contos de Canterbury”. Ele é culto e paciente, tenta mostrar que à Mills que esse é o primeiro passo para essa investigação, porém Mills prefere ler os resumos dos livros para resolver mais rápido, pois claramente prefere a ação.

Tracy, a esposa de Mills, é sem dúvida o tom de vida que permeia o filme, a esperança de uma nova vida com seu amor, que fora seu namorado desde a adolescência e mais tarde uma suposta gravidez a traz mais para perto do publico, e isso é muito importante para o ápice da história. Ao convidar Somerset para um jantar em sua casa, presenciamos o que seria o único momento de descontração do filme.

O vilão nos é revelado a 30 minutos do final, a partir dai as atenções estão voltadas totalmente a ele. John Doe é interpretado magistralmente por um quase desconhecido Kevin Spacey, ele é frio e calculista, cheio de argumentos para seus atos, sua interpretação nos faz lembrar o também Serial Killer Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) de “O Silencio dos Inocentes” (1991). Em inglês, John Doe é o nome dado a indigentes, aqui o assassino é um fantasma urbano, um ser sem nenhum vinculo com a sociedade onde está inserido.

Esse é o segundo filme de David Fincher, seu debut foi em “Alien³” (1992) e depois vieram os ótimos “Vidas em Jogo” (1997) e “Clube da Luta” (1999). Assim como Alfred Hichcock, ele não precisa mostrar muito para que o publico sinta verdadeiro asco em algumas situações.

Analisando os aspectos técnicos, Fincher usa muito o vermelho para realçar a violência presente em alguns ambientes, nas fotos abaixo, podemos notar o uso da cor em ambientes que estão diretamente relacionados com o assassino, desde o carpete do corredor de seu apartamento (assim como a porta do imóvel) à sua roupa depois de preso, contrastando os tons escuros e apáticos das roupas de todos daquela cidade, assim o diferenciando ainda mais de todos ali. 
















É curioso ver como o numero 5 é insistentemente mostrado durante todo o filme, sempre vinculado ao detetive Mills, na lousa da delegacia em que são listado os 7 pecados, o 5° pecado é a “Ira” (tradução de Wrath em inglês) e quem comete o crime relacionado a esse pecado é justamente o próprio Mills, não acredito que possa ser considerado pista e recompensa, pois nos é mostrado muito sutilmente.


Na segunda foto, vemos que o numero da nova sala de Mills é “714”, onde podemos fazer uma divisão que ficaria: 7 (pecados) e 1+4 (igual a 5, 5°pecado).



Já na próxima foto, podemos ver que o numero do apartamento do detetive é “5A”, mais uma vez evocando o número 5 e o “A” que poderia significar “Angry” (Raiva) que é o sinônimo de “Wrath”.


Depois de um interrogatório, também podemos ver que o numero da sala em que Mills se encontra esgotado é mais uma vez o“5”. 


O posicionamento de câmera é muito importante para determinar a importancia de cada personagem em determinado momento, ao se revelar e se entregar, John Doe é mostrado com a camera de baixo para cima, o que signica que ele domina o momento.


Mais tarde, John Doe se declara culpado com a condição dos dois detetives o acompanharem até determinado local, onde provavelmente encontrariam mais duas vítimas. No caminho, Mills inicia uma conversa com Doe, para tentar entender o que se passa em sua cabeça. Nesse momento, o detetive desdenha do assassino, que ouve a tudo passivamente, a camera focaliza Mills através das grades de proteção do carro, as grades estão embaçadas, dando total enfoque no rosto de Mills e ao mostrar o assassino, a grade está bem delineada, colocando Doe em posição inferior, após Doe começar a explicar seus ideiais, Mills fica sério e o vemos através de uma grade já bem definida, invertendo os papéis.


























Um pouco adiante, quando Mills descobre o que havia no pacote entregue à Somerset, a visão que temos é de uma Handicam (camêra na mão), a imagem tremida nos coloca dentro do turbilhão de confusos sentimentos que Mills está sentindo naquele momento, ao mesmo tempo, ao focalizar Doe,  o close nos passa a calma do assassino, que impassivo, comemora o desfecho de seu engenhoso plano. Essa é uma das cenas mais angustiantes que tive a oportunidade de assistir, e ao final o alívio é fato, porém acompanhado pela sensação incomoda de saber que o mal venceu novamente.


Além das ótimas atuações, desde o novato Pitt ao mais experiente Morgan Freeman, Seven se beneficia pelo roteiro amarrado e envolvente, mantendo a atenção do expectador até seu derradeiro final. 


Vale 5 ingressos


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Veja também a crítica de Bruno Miquelino

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A Casa de Alice (2007)

Direção: Chico Teixeira
Roteiro: Chico Teixeira, Júlio Pessoa, Sabina Anzuategui e Marcelo Gomes
Elenco: Carla Ribas, Berta Zemel, Vinicius Zinn, Ricardo Vilaça, Felipe Massuia, Zé Carlos Machado
Origem: Brasil
Ano de lançamento: 2007
Duração: 90 minutos


Há tempos sabemos que a “família margarina”, aquela família sorridente e feliz, tomando todos juntos o seu farto café da manhã, só existe mesmo em comerciais. Não apenas as pessoas não têm tempo para isso, dada a correria do trabalho/escola, como sabemos que essa felicidade excessiva é completamente falsa, pois as famílias normais estão recheadas de problemas e intrigas internas, o que às vezes chega a dilacerar o convívio diário. Contudo, essa “casca de perfeição” permanece presente tanto em nosso subconsciente – e vemos a necessidade de externar mentiras para encobrir a realidade – quanto nas produções cinematográficas brasileiras, que raramente abordam a família sobre um ponto de vista mais realístico e denso.

O filme de estréia de Chico Teixeira é bastante feliz, portanto, ao retratar de maneira firme e sincera as relações de uma família de classe médio-baixa paulistana, tanto internamente quanto frente a seus amigos/colegas. A mãe, Alice (Carla Ribas), é uma manicure de um salão de beleza no centro de São Paulo, cuja melhor cliente, Carmen (Renata Zhaneta), é uma mulher que insiste em ostentar sua “felicidade” conjugal, tal como ostenta seu carro importado, dado pelo seu marido. As duas conversam sempre sobre o dia a dia familiar, ambas tecendo comentários do quanto são “felizes”, “satisfeitas sexualmente” ou mesmo expondo suas intimidades.

O marido de Alice, Lindomar (Zé Carlos Machado), faz o mesmo ao conversar com um passageiro em seu táxi. Relata que está feliz com seu matrimônio, pois ao chegar a sua casa tem “comida quentinha e uma mulher cheirosa” lhe esperando. Contudo, uma das belezas do filme está justamente em nos revelar a “verdade” por trás destas conversas, não em tom pejorativo ou cômico, mas realista, nos deixando interpretar por conta própria. Alice na verdade está em um casamento que já não se sustenta mais, e Lindomar, machista típico, é ausente e infiel (aliás, pedófilo, pois trai com adolescentes). A relação dos dois não é de amor, nem de sexo, mas sim um convívio mútuo no mesmo espaço. Praticamente não há diálogos entre ambos, quem dirá demonstrações de afeto.

Isso se reflete na dinâmica entre seus filhos, que buscam viver suas vidas à revelia dos problemas de seus pais. Lucas (Vinicius Zinn), o irmão mais velho, é a imagem de seu pai, porém mais bruto e folgado. É michê nas horas vagas (uma inserção inútil, por sinal, que não é desenvolvida no filme, sendo para mim um ponto falho do roteiro) e briga constantemente com Edinho (Ricardo Vilaça) o irmão do meio. Este, por sua vez, faz pequenos furtos – em especial da avó protetora da casa, Dona Jacira (Berta Zemel) – para comprar os objetos que deseja e que não recebe de seus pais. Já Junior (Felipe Massuia), o irmão mais novo, se vê perdido em meio a este turbilhão familiar, buscando apoio e carinho nos irmãos, em especial o mais velho, com quem se identifica bastante.

O grande trunfo destes personagens é justamente a sua ausência de maniqueísmos ou mesmo de estereótipos. Lucas, apesar de grosso, em dado momento auxilia carinhosamente sua avó a deitar-se. Edinho rouba da avó, porém quando pode lhe devolve o dinheiro que havia furtado. Até mesmo Alice, mulher traída e desrespeitada pelo marido, também trai em busca de prazer. Ninguém é mau nem bom apenas; são todos pessoas como nós, e exatamente por isso nos identificamos com estes personagens, como se fossemos voyeurs de nós mesmos.

Essa sensação de voyeurismo se amplia com a linguagem naturalista empregada por Chico Teixeira. Em praticamente todos os momentos, temos a câmera parada em um canto de algum cômodo da casa, deixando com que os atores interpretem naturalmente à frente dela, com pouquíssimos cortes e sem maiores movimentações. O resultado tem um efeito duplo: salienta a proximidade com os personagens, criando uma ambiência familiar perfeita, natural e íntima (reforçada pelo estoicismo da direção de arte). Porém ao mesmo tempo, gera o tédio da casualidade, com longas cenas em que a única ação real é simbolizar a intimidade familiar e forçar o público a contemplar o cotidiano da casa. Vez ou outra, a câmera chacoalha, despertando-nos da invisibilidade da filmagem. Por vários momentos, senti que faltou zelo com o trabalho de gravação, independente do naturalismo empregado.

Outro aspecto salientado pelo estilo de Teixeira é a interpretação dos atores. Neste ponto, quem se destaca fortemente é Carla Ribas. A atriz desenvolve sua Alice de maneira impecável, demonstrando durante toda a película uma emoção e complexidade que merecem muitos aplausos, desde os pequenos detalhes (o olhar sofrido, por vezes distante, pensativa), até a incrível cena final, em que aparta a briga de seus filhos (cena esta sem cortes), em um acesso de histeria que me fez ficar sem respirar ao longo de toda a cena.

A Casa de Alice é, assim, um filme naturalista, intenso e contemplativo. É um filme de personagens, que brigam, mentem, sorriem, choram, na tentativa em vão de dizer a si próprios que tudo vai bem, mesmo quando a realidade se apresenta de maneira inversa. Na vida, fazemos isso o tempo todo, sem perceber, e isso nos é tão comum que no filme vemos que aquelas cenas qualquer um de nós poderia protagonizar. Ao terminar dos seus 90 minutos, sentimos que assistimos a nós mesmos e – satisfeitos ou não com essa sensação – é essa a missão a que Chico Teixeira se propôs.

Vale 4 ingressos.

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Crepúsculo dos Deuses (1950)

Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, Charles Brackett, D.M. Marshman J.
Origem: Estados Unidos

Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson
Ano de lançamento: 1950
Duração: 110 minutos



Se o cinema fosse um rio, assistir a Crepúsculo dos Deuses seria como acompanhar o seu percurso. Esse rio cinematográfico nasceria nos filmes mudos, onde as suas grandes estrelas aparecem em pedestais divinos, resplandecendo s margens plácidas. Porém, no seu curso desaguaria um braço que modificaria seu rumo, arremessando a sua correnteza a um delta sonoro, que deixaria para trás grande parte das divindades de antes, afogadas pelo impacto deste cruel braço sonoro. O que vemos em Crepúsculo dos Deuses é, assim, a carcaça destas estrelas, sofrendo ao ver o rio seguir seu curso natural rumo ao infinito.

A história se inicia com um roteirista de segunda classe, Joe Gillis (William Holden), narrando sua própria morte enquanto vemos seu corpo flutuando em uma piscina. O enquadramento feito de dentro da piscina, mesclando a água com o azul do céu, nos dá uma sensação incômoda de liberdade e compaixão pelo homem que conta sua história. A partir daí, voltamos no tempo para acompanhar o seu fracasso como roteirista, devedor, com roteiros copiados e ausente de qualquer perspectiva, a não ser abandonar Hollywood.  

Até que o pneu de seu carro fura na Sunset Blvd. (nome original do longa). Joe é rápido ao achar uma mansão para deixar seu carro, onde irá conhecer a ex-estrela de filmes mudos, Norma Desmond (Gloria Swanson), que ali vive com seu fiel mordomo Max von Mayerling (Erich von Stroheim). Ao saber que Joe é escritor, Norma o “prende” em sua casa, utilizando-o para reescrever uma história que ela mesma trouxe à vida. Joe aceita o cárcere, usufruindo da vida boa e fácil, cheia de presentes e dinheiro, que a senhora consegue lhe oferecer.

É interessante notar como praticamente cada detalhe de Crepúsculo dos Deuses é metafórico e ao mesmo tempo realístico. O carro da ex-estrela é um modelo antigo, já completamente fora de moda. A casa onde Norma e Joe se “prendem” é antiquada, anacrônica, repleta da ostentação exagerada do período de ouro do cinema mudo (aliás, é impressionante o excelente trabalho da Direção de Arte do filme, compondo a mansão com uma riqueza de detalhes inigualável; o trabalho merecidamente lhes rendeu o Oscar). Por mais que o escritor tenha acesso livre para sair, ele vê seu casaco preso na maçaneta ao tentar passar pela porta em um determinado momento, representando sua amarração com aquele ambiente, aquela mulher e aquela época, todos parados no tempo.

Por outro lado, o real e a metáfora se confundem na correnteza metalingüística do filme: os amigos de Norma, chamado de “bonecos de cera” por Joe, são ex-estrelas do cinema mudo da vida real, Buster Keaton, Anna Q. Nilsson e H.B. Warner. Até o apelido utilizado por Cecil B. De Mille para chamar Norma (“little fellow”) é o mesmo que o diretor utilizava para chamar a atriz Gloria Swanson. Porém, o brilhantismo maior desse binômio encontra-se na figura do mordomo Max von Mayerling. Colocado como um dos maiores diretores da história da película (ao lado de D.W.Griffith e Cecil B. De Mille), o criado é representado por Erich von Stroheim, um diretor expoente do cinema mudo da década de 20. Em determinado momento, Norma e Joe sentam no cinema particular da mansão para ver um filme projetado por Max. A película é na verdade “Queen Kelly” (1929 – curiosamente já lançado após o advento do som, em 1927), dirigida por Stroheim e estrelada por Swanson. Ali personagens e pessoas são uma coisa só, revelando toda a genialidade do roteiro (também Oscarizado) e de seu diretor Billy Wilder.

Por sinal, são justamente as atuações brilhantes de Strohein e Swanson que solidificam ainda mais o filme. Esta última está perfeita, sem ultrapassar o limiar da loucura estereotipada, conseguindo passar a sensação ideal de uma mulher que se grudou a um tempo e não quer aceitar o novo, o progresso tecnológico. Holden também está muito bem, levando de maneira competente a falsa culpa que tem por aceitar usufruir da vida boa que leva junto da ex-estrela e seu conflito frente um mundo de produção criativa com a aspirante Betty (Nancy Olson). Aliás, Betty é para mim o único ponto fraco do filme, uma personagem confusa e promíscua demais, porém que serve como uma excelente metáfora para a visão de Wilder do que seria o cinema da época frente o cinema de Norma Desmond.

Aliás, é impressionante notar que esta idéia de Wilder de para onde a corrente do rio estava seguindo, apontou para a maneira como Hollywood se comporta até hoje, permeando boa parte das obras ali produzidas. Infelizmente, é justamente por causa dessa temporalidade e especificidade do filme, que percebo que ele acabou não tomando proporções ainda maiores, sendo não tão conhecido pelo público geral (não-cinéfilos). De qualquer maneira, nas palavras de Norma, em uma das citações mais famosas do cinema: “Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos”. E de fato, perto de Crepúsculo dos Deuses, poucos são os filmes que não ficam pequenos.

Vale 5 ingressos.

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Veja também a crítica de Rodrigo Serrano.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Apresentação - Bruno Miquelino

Ainda hoje eu me lembro da primeira vez em que fui ao cinema, em Janeiro de 1991, para ver “Esqueceram de Mim”, no já extinto Cine Teatro Alphaville. “Olha, como a tela é grande”, dizia o meu pai, e neste dia me apaixonei por esta “tela grande” e os filmes que nela eram projetados. Cresci acompanhado de “Rei Leão”, “Forrest Gump”, e outros, mas foi em 1999 que minha paixão por filmes passou a ter uma dimensão mais profunda: em uma sessão de quinta-feira, às 00h01min, acompanhei por cerca de duas horas e quinze minutos o impactante “Matrix”. Daquele momento em diante, fui aumentando cada vez mais a quantidade de filmes que via, bem como a leitura a respeito do tema, por meio da revista SET e mais recentemente da Preview. A partir daí, frequentar cursos relacionados foi um pulo, sempre buscando conhecer mais e mais e me deliciando com todo o aprendizado cinéfilo.

Com o Sessão Extra, quero aprender de maneira incessante. Quero escrever a respeito de filmes que adoro, filmes que odeio, quero conhecer filmes novos e descobrir detalhes daqueles que já vi. Dedico esse blog (e todo o tempo que nele gasto) à minha noiva, par perfeito para mim, apaixonante e apaixonada por filmes; aos meus amigos, em especial ao Rai e Gabriel, pela parceria de sempre, e ao Rodrigo Serrano, quem me ensinou e me ensina muito, sempre com indicações, discutindo idéias, apresentando um conhecimento e uma paixão por filmes de que tenho muito respeito e admiração.


Divirtam-se com o blog e um grande abraço!

terça-feira, 15 de maio de 2012

Apresentação - Rodrigo Serrano

Sempre apaixonado por filmes, especialmente pela “Trilogia O Poderoso Chefão”, nunca havia ido ao cinema até uma tarde de sábado em 1989 em que fui ao extinto Cine Estoril em Osasco com 9 anos, o filme em cartaz era o clássico dos filmes de luta, “O Grande Dragão Branco”, minha vontade de ver mais filmes levou meu pai a comprar o 1° Video Cassete da familia, a partir daí virei um rato de vídeo locadora e até hoje dedico todo meu tempo vago ao meu antigo amor de infância, os filmes. Ávido por informações, lia tudo que podia sobre o assunto e acompanhava as revistas SET, Vídeo News e tantas outras. Sempre fã do amplo conhecimento de Rubens Ewald Filho, com o advento da internet pude descobrir muitos outros críticos que agora fazem parte da minha vida, como Pablo Villaça (Cinema em Cena) e Roger Ebert (Chicago Sun-Times). Depois de frequentar cursos relacionados à cinema com Pablo Villaça e Franthiesco Ballerini, agora pretendo começar a escrever sobre cinema e expandir meu conhecimento. Dedico todos meus futuros textos a esses críticos que tanto me inspiram, à minha família que sempre me apoiou nesse vício maravilhoso, à minha futura esposa que sempre me acompanha nessa loucura e à meu grande amigo Bruno Miquelino, porque que sem ele, a idéia do blog ainda seria apenas uma idéia.

Grande abraço!

Apresentação

Prezado Leitor, bem vindo ao Sessão Extra, um blog totalmente dedicado à sétima arte,  fruto do desejo de dois aficcionados em cinema que desejam escrever sobre seus filmes favoritos, e que querem levar seu conhecimento e memórias sobre o assunto a todos.

A ideia não é enfocar as novidades e os filmes que estreiam na semana, mas sim homenagear os clássicos que andam tão esquecidos por aí. Obviamente, de vez em quando falaremos sobre filmes novos, promessas, lançamentos, mas apenas para rechear ainda mais o site e não como sua premissa principal. 

Fique bem claro que não somos especialistas em teoria cinematográfica, porém concordamos que o pouco que sabemos deve ser passado adiante, assim como todas as observações e críticas construtivas serão muito bem aceitas em nosso blog. Estamos sempre aprendendo e temos certeza de que aprenderemos ainda mais pelo Sessão Extra.

Iremos publicar semanalmente nossas opiniões sobre nossos filmes favoritos, assim como periodicamente escreveremos especiais sobre atores, diretores, produtores, gêneros, premiações, história do cinema e tudo relacionado a nossos tão amados filmes.

Nossos textos serão críticos e análiticos, portanto o leitor deverá ter assistido ao filme previamente para não ser prejudicado com os respectivos spoilers.

Agora relaxe e se delicie com o Sessão Extra.. Definitivamente uma oferta que você não poderá recusar...