Nome original: Il y a Longtemps que Je T'aime
Direção: Philippe Claudel
Direção: Philippe Claudel
Roteiro: Philippe Claudel
Elenco: Kristin Scott Thomas, Elza Zylberstein, Serge Hazanavicius
Origem: França
Elenco: Kristin Scott Thomas, Elza Zylberstein, Serge Hazanavicius
Origem: França
Ano de lançamento: 2008
Duração: 117 minutos
Ser preso e ter minha liberdade cerceada é possivelmente um de meus maiores temores - e diria que de muitas pessoas que conheço. A própria ideia do aprisionamento já me causa arrepios, o que me faz geralmente apreciar bastante aqueles filmes que conseguem expor de maneira mais honesta, emotiva e artística, esta sensação de enclausuramento punitivo que tanto mexe com nossa mente. Combinar isto com a culpa perseguidora do crime de tirar a vida do próprio filho seria um mote preciso para uma película grandiosa sobre o tema. Seria, repito, pois infelizmente "Há Tanto Tempo Que Te Amo" não o é.
Filme de estreia do Professor de Literatura Philippe Claudel, conta a história de Juliette Fontaine (Kristin Scott Thomas), recém-saída da cadeia, onde passou 15 anos por assassinar seu único filho. Sua irmã, Léa (Elza Zylberstein) busca-a na prisão e recebe-a em sua casa, para viver com sua família. Esta família, por sinal, é um caldeirão de misturas étnicas ("Uma típica família Benetton", nas palavras de Léa, se referindo ao posicionamento da marca de roupas, United Colors of Benetton), com o pai, Luc (Serge Hazanavicius), de ascendência polonesa, o avô mudo (Jean-Claude Arnaud) de origem russa, e duas filhas vietnamitas. Só que isso não acrescenta em nada para o filme, portanto não esperem reflexões mais profundas sobre a diversidade étnica, pois elas simplesmente não existem.
Não existem, pois o tema central do filme é Juliette. E neste ponto o filme tem um de seus poucos acertos. A ex-presidiária fala pouco durante todo tempo, sendo fria e solitária, claramente ainda sofrendo com o peso do enclausuramento pelo qual permaneceu durante tempo, física e psicologicamente. A atriz Kristin Scott Thomas faz um trabalho excepcional neste sentido, transmitindo muito somente com seus olhos, sua expressão, seu caminhar sem vida e sem propósito, praticamente por inércia. E mesmo nos momentos próximos do término do filme, quando sua vida começa lentamente a adquirir um novo sabor, seu olhar se altera para um brilho tênue, ainda nublado por todo o sofrimento pelo qual passou.
Contudo, a obviedade com a qual os acontecimentos pós-prisão vão acontecendo com Juliette joga pelo ralo o belíssimo trabalho da atriz. Vemos ali todos os clichês que conhecemos: o empregador que dispensa por conta do crime cometido; a assistente social que pensa que "compreende" tudo, porém fala muito mais do que pode fazer; e até mesmo a imbecilidade daqueles que não possuem tato para entender/ter compaixão (como Gérard, o amigo do casal). É claro que neste caso os clichês são de fato a realidade de um ex-presidiário, porém é bem diferente assimilar estes fatos e inseri-los de maneira à refletirmos sobre a crueldade da inserção destas pessoas de volta na sociedade. O filme, por exemplo, peca ao mostrar a conquista do emprego como algo rápido e tranquilo, passando por apenas uma rejeição ao chegar à conquista final. Faltou a Claudel aqui, qualidade técnica para contar uma história cinematográfica, abrindo mão de sua arte literária.
Aliás, do ponto de vista técnico o filme também não chama a atenção. Seu trabalho de som é fraco, sem nenhum atrativo maior. O trabalho de maquiagem e figurino até acerta ao mostrar Juliette sem maquiagem, despida de qualquer vaidade, porém parece estender isso para o resto do elenco. O único aspecto que de fato se destaca é a fotografia, fazendo closes muito competentes, que trazem mais emoção à tela, como na belíssima cena em que Léa recebe a notícia de seu amigo médico sobre o filho de Juliette, com a câmera se aproximando de seu rosto à medida em que sua filha recitava um trecho de "O Pequeno Princípe", justamente sobre o sentimento da perda.
Esta filha maior, entretanto, P'tit Lys (Lise Segur) foi uma das minhas maiores irritações ao longo de todo o filme. Todas as vezes que ela abria a boca, soltava alguma frase que não condizia com o fato de ser uma criança de somente 8 anos. Sua personagem é incongruente, forçando uma "fofura pueril" que mais soa como a realidade distorcida de alguns pais, que insistem em "adultizar" suas crianças, achando isso perfeitamente normal. O auge é quando a mesma pergunta para sua mãe e Juliette se elas "após irem ao restaurante iriam sair para dançar". Oras, ela é uma criança, não deve saber o que os adultos fazem quando saem para se divertir. Ponto negativo para Claudel que não apenas não sabe dirigir uma criança, como não sabe criar personagens infantis.
Essa inabilidade, o diretor e roteirista mostra também na sua cena final. Depois de todo o filme manter escondida de maneira brilhante a verdade por trás da morte que condenou Juliette, somos, infelizmente, levados a receber uma explicação longa e desnecessária sobre como e porquê a mãe tomou tal atitude. O que era para permanecer na imaginação dos espectadores, criando múltiplas interpretações, se encerra por si só, numa tentativa desesperada de dar humanidade e razão ao sofrimento daquela mulher. Ao subir os créditos, fica a sensação de que o filme poderia ter sido ótimo, mas acabou sendo um fracasso, em que a reflexão deu lugar a uma história rasa, com uma atriz excepcional. O Cinema tem dessas coisas.
Vale 2 ingressos.
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Veja também a crítica de Rodrigo Serrano
Ser preso e ter minha liberdade cerceada é possivelmente um de meus maiores temores - e diria que de muitas pessoas que conheço. A própria ideia do aprisionamento já me causa arrepios, o que me faz geralmente apreciar bastante aqueles filmes que conseguem expor de maneira mais honesta, emotiva e artística, esta sensação de enclausuramento punitivo que tanto mexe com nossa mente. Combinar isto com a culpa perseguidora do crime de tirar a vida do próprio filho seria um mote preciso para uma película grandiosa sobre o tema. Seria, repito, pois infelizmente "Há Tanto Tempo Que Te Amo" não o é.
Filme de estreia do Professor de Literatura Philippe Claudel, conta a história de Juliette Fontaine (Kristin Scott Thomas), recém-saída da cadeia, onde passou 15 anos por assassinar seu único filho. Sua irmã, Léa (Elza Zylberstein) busca-a na prisão e recebe-a em sua casa, para viver com sua família. Esta família, por sinal, é um caldeirão de misturas étnicas ("Uma típica família Benetton", nas palavras de Léa, se referindo ao posicionamento da marca de roupas, United Colors of Benetton), com o pai, Luc (Serge Hazanavicius), de ascendência polonesa, o avô mudo (Jean-Claude Arnaud) de origem russa, e duas filhas vietnamitas. Só que isso não acrescenta em nada para o filme, portanto não esperem reflexões mais profundas sobre a diversidade étnica, pois elas simplesmente não existem.
Não existem, pois o tema central do filme é Juliette. E neste ponto o filme tem um de seus poucos acertos. A ex-presidiária fala pouco durante todo tempo, sendo fria e solitária, claramente ainda sofrendo com o peso do enclausuramento pelo qual permaneceu durante tempo, física e psicologicamente. A atriz Kristin Scott Thomas faz um trabalho excepcional neste sentido, transmitindo muito somente com seus olhos, sua expressão, seu caminhar sem vida e sem propósito, praticamente por inércia. E mesmo nos momentos próximos do término do filme, quando sua vida começa lentamente a adquirir um novo sabor, seu olhar se altera para um brilho tênue, ainda nublado por todo o sofrimento pelo qual passou.
Contudo, a obviedade com a qual os acontecimentos pós-prisão vão acontecendo com Juliette joga pelo ralo o belíssimo trabalho da atriz. Vemos ali todos os clichês que conhecemos: o empregador que dispensa por conta do crime cometido; a assistente social que pensa que "compreende" tudo, porém fala muito mais do que pode fazer; e até mesmo a imbecilidade daqueles que não possuem tato para entender/ter compaixão (como Gérard, o amigo do casal). É claro que neste caso os clichês são de fato a realidade de um ex-presidiário, porém é bem diferente assimilar estes fatos e inseri-los de maneira à refletirmos sobre a crueldade da inserção destas pessoas de volta na sociedade. O filme, por exemplo, peca ao mostrar a conquista do emprego como algo rápido e tranquilo, passando por apenas uma rejeição ao chegar à conquista final. Faltou a Claudel aqui, qualidade técnica para contar uma história cinematográfica, abrindo mão de sua arte literária.
Aliás, do ponto de vista técnico o filme também não chama a atenção. Seu trabalho de som é fraco, sem nenhum atrativo maior. O trabalho de maquiagem e figurino até acerta ao mostrar Juliette sem maquiagem, despida de qualquer vaidade, porém parece estender isso para o resto do elenco. O único aspecto que de fato se destaca é a fotografia, fazendo closes muito competentes, que trazem mais emoção à tela, como na belíssima cena em que Léa recebe a notícia de seu amigo médico sobre o filho de Juliette, com a câmera se aproximando de seu rosto à medida em que sua filha recitava um trecho de "O Pequeno Princípe", justamente sobre o sentimento da perda.
Esta filha maior, entretanto, P'tit Lys (Lise Segur) foi uma das minhas maiores irritações ao longo de todo o filme. Todas as vezes que ela abria a boca, soltava alguma frase que não condizia com o fato de ser uma criança de somente 8 anos. Sua personagem é incongruente, forçando uma "fofura pueril" que mais soa como a realidade distorcida de alguns pais, que insistem em "adultizar" suas crianças, achando isso perfeitamente normal. O auge é quando a mesma pergunta para sua mãe e Juliette se elas "após irem ao restaurante iriam sair para dançar". Oras, ela é uma criança, não deve saber o que os adultos fazem quando saem para se divertir. Ponto negativo para Claudel que não apenas não sabe dirigir uma criança, como não sabe criar personagens infantis.
Essa inabilidade, o diretor e roteirista mostra também na sua cena final. Depois de todo o filme manter escondida de maneira brilhante a verdade por trás da morte que condenou Juliette, somos, infelizmente, levados a receber uma explicação longa e desnecessária sobre como e porquê a mãe tomou tal atitude. O que era para permanecer na imaginação dos espectadores, criando múltiplas interpretações, se encerra por si só, numa tentativa desesperada de dar humanidade e razão ao sofrimento daquela mulher. Ao subir os créditos, fica a sensação de que o filme poderia ter sido ótimo, mas acabou sendo um fracasso, em que a reflexão deu lugar a uma história rasa, com uma atriz excepcional. O Cinema tem dessas coisas.
Vale 2 ingressos.
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Veja também a crítica de Rodrigo Serrano

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