terça-feira, 11 de junho de 2013

Curtindo a Vida Adoidado (1986)

Nome Original: Ferris Bueller's Day Off
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Charlie Sheen 
Origem: EUA
Ano de Lançamento: 1986
Duração: 103 minutos




Há exatamente 27 anos atrás, no dia 11 de Junho de 1986, era lançado um dos maiores clássicos da atualidade: "Curtindo a Vida Adoidado". O filme conseguiu como poucos eternizar uma geração, com um humor inteligente, capaz de retratar o sonho de quase todo mundo de, pelo menos por um dia, escapar de todas as responsabilidades diárias e simplesmente divertir-se! Se "Carpe Diem" é um mote para muitos, este filme é a representação cinematográfica desta frase.

É justamente a simplicidade com que isto é feito que encanta qualquer um que assiste ao filme. O enredo é fácil de ser compreendido e ainda mais fácil de nos identificarmos com ele: Ferris Bueller (Matthew Broderick), um estudante, finge estar doente para poder cabular aula. Então, arranja um jeito de levar sua namorada, Sloane, e seu melhor amigo neurótico, Cameron, para "curtirem a vida adoidado", enquanto o diretor de sua escola sai à sua caça. Não há nenhuma proposta de algo a mais neste enredo ou nos personagens: somente a diversão pela diversão, algo que no fundo qualquer um de nós sempre quis ter o desprendimento de fazer.

E em cada loucura nova de Ferris na tela vibramos com ele, seja imaginando "o quanto ele é louco" ou "ah, bem que poderia ser eu". Para mim esse foi o maior acerto do diretor John Hughes neste filme. Em todos os momentos vemos um esforço hercúleo de Ferris para conseguir escapar e simplesmente se divertir. Confesso que por muitos anos, eu tentei bolar um sistema engenhoso como aquele do quarto dele, com um boneco na cama amarrado à maçaneta e sons de tosse ao fundo. Pois sempre quis ter essa despretensão de poder criativamente colocar em prática todas as minhas vontades. Ferris é assim: não está preocupado em alterar as regras da sociedade e criar um mundo melhor, mas sim em quebrar as regras para sua própria diversão. Mata aulas, forja sua doença, se faz passar por qualquer autoridade que lhe convenha e até consegue estar acima da micro-sociedade escolar, sendo amado por todos os grupos, sem um vínculo mais forte com nenhum deles. 

Ferris é assim, a essência máxima da juventude americana dos anos 80, geração conhecida nos livros de história como baby boomer. Ao contrário da geração de seus pais, que foi à guerra lutar pelo seu país, os baby boomers só queriam cantar Twist 'n Shout nas ruas no horário de aula. Hughes foi fabuloso ao conseguir colocar isso nas telonas de maneira tão explícita e cativante. Vale o mérito também de Matthew Broderick, cuja atuação como Ferris foi, para mim, a melhor atuação de sua carreira: desprendido e nitidamente divertindo-se absurdamente com seu papel, Broderick consegue mentir descaradamente e ainda nos fazer gostar imensamente dele. E mesmo nas cenas em que o ator "conversa" com o público, quebrando a "quarta parede", como Woody Allen (ou melhor?), ele o faz com uma naturalidade que parece que somos amigos antigos dele. 

Aliás, falando de elenco, destaco também outros três atores: Alan Ruck, como o amigo Cameron Frye, talvez o personagem mais complexo do filme, um cara irritantemente medroso e hipocondríaco, que consegue relances da felicidade que ele mesmo reprime e assim cativa imediatamente a qualquer um; Jeffrey Jones,  como o diretor Ed Rooney, sem dúvida um dos vilões mais divertidos e convincentes da história do cinema; e por fim, em uma daquelas pontas inesquecíveis das telonas, Charlie Sheen, como o delinquente que encontra a irmã de Bueller na delegacia. Sheen havia ficado duas noites sem dormir para ter aquela aparência destruída, o que alinhada com suas frases curtas e seu carisma único, rendeu um outro momento inesquecível do filme (como tantos). 

Em suma, Curtindo a Vida Adoidado é um filme que me ensinou inúmeras coisas: os 3 pontos para enganar os pais, moicanos com shampoo, andar de ré não volta o odômetro do carro, que ninguém completa as frases dos professores, que não é possível ir para a escola em um "dia como esse", e principalmente que a "vida anda muito rápido". Assim, "se não pararmos de vez em quando para admirá-la, podemos perdê-la". O mesmo acontece com esse filme: precisamos, a meu ver, de vez em quando parar para admirá-lo, pois podemos perder a sua essência. Save Ferris!

Vale um Ingresso de Ouro!
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Veja também a crítica de Rodrigo Serrano




P.S. Ainda por aqui? Já acabou. Vá para casa. Vá.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

O Acordo (Snitch, 2013)


Nome Original: Snitch
Direção: Ric Roman Waugh
Roteiro: Justin Haythe e Ric Roman Waugh
Elenco: Dwayne Johnson, Barry Pepper, Susan Sarandon, Jon Bernthal, Nadine VelazquezRafi Gavron
Origem: EUA
Ano: 2013
Duração: 112 Minutos 


Jason Collins (Rafi Gavron) é um jovem preso injustamente ao ser vítima de uma armação de seu amigo traficante de drogas, mesmo sabendo que sua pena pode ser aliviada se fizer o mesmo tipo de armação com outra pessoa, ele se nega e fica na cadeia. John Matthews (Dwayne Johnson) é o pai, que ao saber sobre a situação do filho, é capaz de fazer qualquer coisa para amenizar o sofrimento de seu filho. 

John decide se infiltrar entre os traficantes locais para que assim, a promotora Joanne (Sarandon) e o agente Cooper (Departamento de Narcóticos) consigam uma grande apreensão e possam barganhar a liberdade de Jason. John é dono de uma transportadora, e entre seus funcionários existem alguns ex-condenados, como Daniel James (Jon Bernthal, de "The Walking Dead") que após alguma relutância, decide lhe ajudar a se infiltrar no mundo do crime. Achei que a introdução de John no mundo dos traficantes acontece muito rapidamente, quando ele oferece transporte para o itens contrabandeados, todos os mais perigosos bandidos confiam nele sem muito saber sobre aquele cara. 

Apesar de alguns erros de roteiro, o filme me surpreendeu muito positivamente, pois esperava apenas um outro filme de ação de Dwayne Johnson, e aqui ele entrega o que para mim é sua melhor atuação até agora, pois embora ele tenha 1,92m de altura e seja muito forte, aqui ele é apenas um cara comum, jogado em um mundo completamente desconhecido e demonstrando todas as fraquezas de um ser humano normal, um pai de família que poderia ter sido interpretado por qualquer ator sem um porte físico semelhante ao do ator. Não se engane, o filme tem algumas cenas de tiroteio e perseguição muito boas, o diretor Ric Roman Waugh é um ex-coordenador de dubles de filmes dos anos 80 e 90 e consegue estabelecer um excelente clima de tensão.


O elenco coadjuvante é um deleite para quem gosta de cinema, desde sua linda esposa (Nadine Velazquez, a Catalina de "My Name is Earl"), Susan Sarandon como a promotora, Barry Pepper como o agente durão do departamento de narcóticos, Joe Bernhal, o empregado ex-condenado, até Benjamin Brat como "El Topo", o grande chefão das drogas, todos estão muito bem, servindo como apoio na medida certa para um ator que se esforça ao máximo e consegue um ótimo resultado

O filme é uma grande espiral de tensão com drama na medida certa, e o melhor é que ele não se apoia em cenas de ação o tempo todo para resolver os problemas que vão aparecendo. Dispam-se dos pre-conceitos e aproveitem um ótimo filme.


PS: A premissa do filme é baseada em uma lei atual nos EUA, em que as pessoas que são presas por tráfico de drogas, podem se beneficiar se ajudarem a polícia incriminar outra pessoa. 



Vale 3 Ingressos






quinta-feira, 30 de maio de 2013

Perras (2011)

Nome Original: Perras
Direção: Guillermo Ríos
Roteiro: Guillermo Ríos
Elenco: Claudia Zepeda, Karen de la Hoya, Scarlet Dergal 
Origem: México
Ano de Lançamento: 2011
Duração: 100 minutos



*Contém Spoilers*

A adolescência é uma fase extremamente complicada de nossas vidas, em que nos vemos lidando com nossos hormônios em ebulição ao mesmo tempo em que queremos conseguir ser aceitos perante os outros adolescentes. É o momento em que os "primeiros" surgem: primeiro porre, primeira transa, primeiro rock 'n roll... e - talvez por conta disso mesmo - é uma época que muda de tempos em tempos. Tenho certeza de que a adolescência de meus pais foi diferente da minha e será diferente da dos meus filhos.

É este o tema principal de "Perras" um filme de Guillermo Ríos, um inexperiente diretor mexicano, que arrisca em seu primeiro longa a adaptação deste roteiro que era de uma peça de teatro. O filme conta a história de 10 garotas, entre 14 e 15 anos de idade, que se veem presas em uma sala de aula, após um acidente muito terrível acontecer na escola (que só vamos descobrir o que é no final do filme). Essas garotas vão discutindo entre si, acusando umas às outras de terem sido responsáveis pelo tal acidente, e ao longo desses diálogos, a película explora a vida e as experiências de cada uma delas.

É justamente ao explorar esse passado de cada uma das personagens que o filme tem seu grande acerto. Cada garota possui um estereótipo diferente, que é reforçado com base em suas revelações, narradas pontualmente. Há a "Gorda", a garota cuja sonho maior é ter seus amigos unidos em uma festa de 15 anos, na qual sua irmã representará a ela em uma dança ao som da música da Thalia. Há a "Vagabunda", cuja personalidade principal é absolutamente sexualizada e pervertida. Há a "Sonhadora", que tem uma mãe alcoólatra, porém tem como meta ir bem na escola para poder ter a chance de ver sua mãe nas suas férias. E como esses, há vários outros estereótipos, que são lentamente explorados pelo filme. Cada adolescente é como é: com seu propósito secreto, porém borbulhando de curiosidade lasciva e da tentativa de auto-afirmação.

Um dos melhores exemplos disso, a meu ver, é a personagem da "Amiga" da "Manchada" (a "Vagabunda"), cujas falas são quase todas repetições das falas da amiga ou então questionamentos sobre a vida da "Manchada". Ela é para mim, um estereótipo ideal de uma adolescente cuja personalidade é fraca, porém a sua necessidade de auto-afirmação extrapola seu caráter e pudor: em determinado momento do filme, ela sai da roda de amigas que cantam uma música pervertida, sem querer cantar os versos que dizem "sou uma puta". Contudo, ela insiste em se colocar como "melhor amiga" da "Manchada", em uma ânsia de auto-afirmação e proteção típica da adolescência. Esse é, a meu ver, o acerto máximo do filme.

Além dos estereótipos firmados, é interessante notar a irresponsabilidade dos atos dessas adolescentes, que não parecem ter maturidade suficiente para dimensionar o grau de cada uma de suas atitudes. Desde o bullying, que aparece no tratar pejorativo da menina gorda ou da outra cega, até o princípio de bulimia, ao ver as garotas vomitando para poderem comer sem culpa, tudo parece ser feito sem se mensurar o que pode ser provocado em retorno. Essa imprudência tem seu ponto alto no final do filme, em que o aborto é lidado como algo corriqueiro e cujos perigos não são dimensionados (ou sequer conhecidos). A própria morte da amiga é lidada com uma banalidade perversa, sem muita noção da gravidade da situação.

Neste sentido, o sexo é tratado com a mesma banalidade, com a qual cada garota pode transar com quem bem lhe aprouver, se aproveitando da completa inconsequência da adolescência para tal. Por outro lado, essa ânsia de "sexualizar" a cada uma de suas personagens, faz com que o longa extrapole na perversidade, se perdendo na banalização exagerada do sexo pueril. Em determinado momento do filme, uma personagem relata em detalhes a experiência com um senador. Contudo, a película insiste em expor visualmente por tempo demasiado os mesmos relatos da garota, não apenas banalizando a sexualidade no filme, como mostrando a ineficiência do diretor ao contar uma história (o cinema não precisa de um relato visual e narrativo ao mesmo tempo!). Ao mesmo tempo, a excessiva repetição sobre o tema da sexualidade faz com que a película pareça não ser sobre adolescentes, mas sim sobre "sexo (ou perversão) na adolescência". Infelizmente isso quase destrói todo o filme, o que novamente mostra a falta de habilidade do novato diretor.

Se o filme não é destruído por essa obsessão pelo sexo, é porque é salvado pela bela atuação das atrizes-mirins, que encarnam seus personagens de maneira convincente e realística. Ao mesmo tempo, a fotografia distingue de maneira competente os flashbacks do momento atual, tingindo o último com um tom azul torturante. A montagem também é bastante competente, com transições fluídas entre o "acidente" e as narrações de cada personagem. Uma pena que o diretor insista em inserir uma animação no meio do filme, sem qualquer propósito, ou sem qualquer beleza.

Perras é, assim, uma película capaz de trazer algumas reflexões e discussões ao longo de seus 100 minutos, porém que com seus excessos e amadorismos destrói o ânimo do espectador. Como a adolescência, há momentos sem sentido e momentos de inteligência, e depende de cada um escolher qual cena guardará em sua memória após tudo acabar. Não se deve esperar o fascínio de uma obra-prima adulta, nem a inocência de uma visão pueril. Aliás, melhor esperar o que se espera da adolescência: um amadorismo que nos intriga fugazmente.

Vale 3 ingressos
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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Somos Tão Jovens (2013)


*Contém Spoilers*


Nome Original: Somos Tão Jovens
Direção: Antonio Carlos da Fontoura
Roteiro: Marcos Bernstein
Elenco: Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bruno Torres, Marcos Breda, Sandra Corveloni 
Origem: Brasil
Ano de Lançamento: 2013
Duração: 104 minutos

Somos Tão Jovens começa com uma bela introdução em que a infância e a adolescência de Renato Russo nos é mostrada de forma a dizer de forma subjetiva pelo diretor que o filme não abordaria toda a vida desse grande poeta brasileiro, mas apenas uma parte. É difícil dizer, mas acho que foi o período de mais inspiração e encontro com si próprio que ele teve em vida. 

Vimos nos últimos anos, cinebiografias diversas sobre astros da música brasileira, como Gonzaga - De Pai para Filho (2012), Cazuza - O Tempo não Pára (2004) e Dois Filhos de Francisco (2005). Filmes belos cujas histórias de vidas dos personagens foram, muitas vezes, até mais interessantes que suas próprias obras. Aqui podemos ver o começo do Rock Nacional dos anos 80, de onde apareceram grandes ícones como, claro, a  Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial e muitos outros, que encontravam em suas letras uma forma de lidar com a ditadura militar, com conflitos internos, enfim, com um verdadeiro turbilhão de emoções prestes a explodir a qualquer momento. 

O filme tem seu ponto alto em seu protagonista e, para deleite dos fãs, Thiago Mendonça consegue   perfeitamente lidar com o peso de interpretar o grande ídolo, com muita leveza e se ajustando a todos os trejeitos de Renato. O roteiro aborda bem o final da adolescência de Renato Russo, onde após o mesmo ser vítima de uma doença que o deixa muito tempo em repouso, ele se encontra em grande conflito depois muitas leituras e de ouvir muito Rock N' Roll , músicas essas que seus amigos traziam do exterior. Nem é preciso lembrar a dificuldade que era para se obter uma música, livro ou qualquer veículo de informação antes do final dos anos 90... Todo o movimento punk na Inglaterra desperta algo nesse rapaz de Brasilia e ao se recuperar, vai atrás de expressar todo sentimento reprimido através de sua poesia, de sua música, durante vários anos de sua vida, começando pela banda "Aborto Elétrico". 

Minha maior crítica ao filme é a covardia de não mostrar um aprofundamento na bissexualidade de Renato, fato importante que ele não escondeu e fez questão de deixar bem claro durante sua vida e carreira. Uma relação sexual com sua amiga é bem clara, quando sua atração a homens foram diminuídas apenas a flertes e carinhos como um abraço ou uma declaração num momento de bebedeira. O roteiro também me deixou muito desconfortável ao introduzir algumas frases marcantes de suas músicas em diálogos casuais como ele falando: "Tédio com um T bem Grande" num momento monótono, ou "Quanta gente Esquisita" ao entrar numa festa de burgueses. Também acho que a câmera é muito inquieta, quando poderíamos nos concentrar mais na história, acredito que o diretor queria que sentíssemos aqueles momentos conturbados através desse tipo de movimento de câmera.

Também foi muito bacana ver outros cantores e bandas aparecerem durante a jornada de Renato, como os irmão "Lemos", "Dinho Ouro-Preto", e até mesmo "Herbert Vianna". Apesar de achar estranho e num primeiro momento, acredito que o roteirista tenha acertado ao finalizar o filme no começo de sua carreira na Legião Urbana, e muito mais feliz por não transformar o filme em um dramalhão ao abordar sua derradeira morte em 1996. 

Apesar das poucas críticas acima, o filme me empolgou como poucos filmes nacionais ou até mesmo cinebiografias internacionais, pois em minha adolescência, muito ouvia os versos dessa banda que, em minha opinião é a melhor banda de rock brasileira de todos os tempos. A Legião Urbana e seu líder, Renato Russo, fizeram muita companhia para mim em momentos, felizes, tristes ou até mesmo angustiantes e posso afirmar que fui e ainda sou muito feliz por todos esses momentos. Minha maior frustração é saber que nunca verei um show seu, e sinto muita falta desse cara que me deixou meio órfão há quase 17 anos. 

P.S.: Pode ter sido brega, mas a maneira como a música "Ainda é Cedo" é introduzida no filme, achei extremamente emocionante. 

Curiosidade:
A direção musical é de Carlos Trilha, que participou da banda de apoio da Legião e arranjou e produziu dois CDs solo de Renato Russo, “The Stonewall Celebration Concert” e “Equilíbrio Distante”. Foram muitos meses de preparação para que Thiago cantasse e tocasse as músicas do longa em performances ao vivo.


    THIAGO MENDONÇA


RENATO RUSSO







Poster do Filme



Vale 4 Ingressos

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domingo, 3 de junho de 2012

Há Tanto Tempo Que Te Amo (2008)


Nome original: Il y a Longtemps que Je T'aime
Direção: Philippe Claudel
Roteiro: Philippe Claudel
Elenco: Kristin Scott Thomas, Elza Zylberstein, Serge Hazanavicius
Origem: França
Ano de lançamento: 2008
Duração: 117 minutos



Ser preso e ter minha liberdade cerceada é possivelmente um de meus maiores temores - e diria que de muitas pessoas que conheço. A própria ideia do aprisionamento já me causa arrepios, o que me faz geralmente apreciar bastante aqueles filmes que conseguem expor de maneira mais honesta, emotiva e artística, esta sensação de enclausuramento punitivo que tanto mexe com nossa mente. Combinar isto com a culpa perseguidora do crime de tirar a vida do próprio filho seria um mote preciso para uma película grandiosa sobre o tema. Seria, repito, pois infelizmente "Há Tanto Tempo Que Te Amo" não o é.

Filme de estreia do Professor de Literatura Philippe Claudel, conta a história de Juliette Fontaine (Kristin Scott Thomas), recém-saída da cadeia, onde passou 15 anos por assassinar seu único filho. Sua irmã, Léa (Elza Zylberstein) busca-a na prisão e recebe-a em sua casa, para viver com sua família. Esta família, por sinal, é um caldeirão de misturas étnicas ("Uma típica família Benetton", nas palavras de Léa, se referindo ao posicionamento da marca de roupas, United Colors of Benetton), com o pai, Luc (Serge Hazanavicius), de ascendência polonesa, o avô mudo (Jean-Claude Arnaud) de origem russa, e duas filhas vietnamitas. Só que isso não acrescenta em nada para o filme, portanto não esperem reflexões mais profundas sobre a diversidade étnica, pois elas simplesmente não existem.

Não existem, pois o tema central do filme é Juliette. E neste ponto o filme tem um de seus poucos acertos. A ex-presidiária fala pouco durante todo tempo, sendo fria e solitária, claramente ainda sofrendo com o peso do enclausuramento pelo qual permaneceu durante tempo, física e psicologicamente. A atriz Kristin Scott Thomas faz um trabalho excepcional neste sentido, transmitindo muito somente com seus olhos, sua expressão, seu caminhar sem vida e sem propósito, praticamente por inércia. E mesmo nos momentos próximos do término do filme, quando sua vida começa lentamente a adquirir um novo sabor, seu olhar se altera para um brilho tênue, ainda nublado por todo o sofrimento pelo qual passou.

Contudo, a obviedade com a qual os acontecimentos pós-prisão vão acontecendo com Juliette joga pelo ralo o belíssimo trabalho da atriz. Vemos ali todos os clichês que conhecemos: o empregador que dispensa por conta do crime cometido; a assistente social que pensa que "compreende" tudo, porém fala muito mais do que pode fazer; e até mesmo a imbecilidade daqueles que não possuem tato para entender/ter compaixão (como Gérard, o amigo do casal). É claro que neste caso os clichês são de fato a realidade de um ex-presidiário, porém é bem diferente assimilar estes fatos e inseri-los de maneira à refletirmos sobre a crueldade da inserção destas pessoas de volta na sociedade. O filme, por exemplo, peca ao mostrar a conquista do emprego como algo rápido e tranquilo, passando por apenas uma rejeição ao chegar à conquista final. Faltou a Claudel aqui, qualidade técnica para contar uma história cinematográfica, abrindo mão de sua arte literária.

Aliás, do ponto de vista técnico o filme também não chama a atenção. Seu trabalho de som é fraco, sem nenhum atrativo maior. O trabalho de maquiagem e figurino até acerta ao mostrar Juliette sem maquiagem, despida de qualquer vaidade, porém parece estender isso para o resto do elenco. O único aspecto que de fato se destaca é a fotografia, fazendo closes muito competentes, que trazem mais emoção à tela, como na belíssima cena em que Léa recebe a notícia de seu amigo médico sobre o filho de Juliette, com a câmera se aproximando de seu rosto à medida em que sua filha recitava um trecho de "O Pequeno Princípe", justamente sobre o sentimento da perda.

Esta filha maior, entretanto, P'tit Lys (Lise Segur) foi uma das minhas maiores irritações ao longo de todo o filme. Todas as vezes que ela abria a boca, soltava alguma frase que não condizia com o fato de ser uma criança de somente 8 anos. Sua personagem é incongruente, forçando uma "fofura pueril" que mais soa como a realidade distorcida de alguns pais, que insistem em "adultizar" suas crianças, achando isso perfeitamente normal. O auge é quando a mesma pergunta para sua mãe e Juliette se elas "após irem ao  restaurante iriam sair para dançar". Oras, ela é uma criança, não deve saber o que os adultos fazem quando saem para se divertir. Ponto negativo para Claudel que não apenas não sabe dirigir uma criança, como não sabe criar personagens infantis.

Essa inabilidade, o diretor e roteirista mostra também na sua cena final. Depois de todo o filme manter escondida de maneira brilhante a verdade por trás da morte que condenou Juliette, somos, infelizmente, levados a receber uma explicação longa e desnecessária sobre como e porquê a mãe tomou tal atitude. O que era para permanecer na imaginação dos espectadores, criando múltiplas interpretações, se encerra por si só, numa tentativa desesperada de dar humanidade e razão ao sofrimento daquela mulher. Ao subir os créditos, fica a sensação de que o filme poderia ter sido ótimo, mas acabou sendo um fracasso, em que a reflexão deu lugar a uma história rasa, com uma atriz excepcional. O Cinema tem dessas coisas.

Vale 2 ingressos.

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terça-feira, 29 de maio de 2012

SE7EN (1995)

Direção: David Fincher
Roteiro: Andrew Kevin Walker
Elenco: Morgan Freeman, Brad Pitt, Gwyneth Paltrow, R. Lee Ermey, Kevin Spacey
Origem: EUA
Ano de lançamento: 1995
Duração: 127 minutos





*Contém Spoilers*


Já na incômoda abertura do filme, somos preparados para o clima que virá em seguida. A história é ambientada em uma cidade dos EUA, a qual o nome nunca é mencionado, assim tornando os fatos universais.  O ambiente é escuro e caótico, chove o tempo todo, passando uma sensação incomoda para o expectador.

O filme nos apresenta sutilmente seus personagens, Somerset é um velho detetive, culto, cansado e prestes a se aposentar que se depara com uma nova e complicada investigação quando chega a seu distrito policial o jovem e empolgado David Mills, que em pouco tempo de tela se auto intitula como “Serpico” à sua esposa Tracy (Gwyneth Paltrow), assim se revelando um policial com gana de exercer sua profissão da melhor maneira possivel, do tipo incorruptível (para quem não se lembra, Serpico é um policial incorrupto interpretado por Al Pacino em um filme 1973 de mesmo nome dirigido por Sidney Lumet).

Logo no início do filme Somerset é chamado para averiguar uma ocorrencia e se depara com um homem obeso morto, seu rosto afundado em um prato de macarrão, ele está todo amarrado, de forma a se chegar a conclusão de que aquela morte fora um assassinato. No dia seguinte, outra vitima é encontrada e no chão há a palavra “Cobiça” escrita com sangue. Somerset volta ao local do primeiro crime e descobre que havia a palavra “Gula” escrita com gordura na parede, assim deduz que esses crimes são frutos de um serial killer (assassino em série) e o mesmo se baseia nos 7 pecados capitais, gula, cobiça, luxuria, inveja, ira, preguiça e vaidade.

Somerset segue um caminho diferente de uma investigação comum e vai à biblioteca pesquisar os livros em que os sete pecados são citados, cita “A Divina Comédia”, “Paraíso Perdido” e “Os Contos de Canterbury”. Ele é culto e paciente, tenta mostrar que à Mills que esse é o primeiro passo para essa investigação, porém Mills prefere ler os resumos dos livros para resolver mais rápido, pois claramente prefere a ação.

Tracy, a esposa de Mills, é sem dúvida o tom de vida que permeia o filme, a esperança de uma nova vida com seu amor, que fora seu namorado desde a adolescência e mais tarde uma suposta gravidez a traz mais para perto do publico, e isso é muito importante para o ápice da história. Ao convidar Somerset para um jantar em sua casa, presenciamos o que seria o único momento de descontração do filme.

O vilão nos é revelado a 30 minutos do final, a partir dai as atenções estão voltadas totalmente a ele. John Doe é interpretado magistralmente por um quase desconhecido Kevin Spacey, ele é frio e calculista, cheio de argumentos para seus atos, sua interpretação nos faz lembrar o também Serial Killer Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) de “O Silencio dos Inocentes” (1991). Em inglês, John Doe é o nome dado a indigentes, aqui o assassino é um fantasma urbano, um ser sem nenhum vinculo com a sociedade onde está inserido.

Esse é o segundo filme de David Fincher, seu debut foi em “Alien³” (1992) e depois vieram os ótimos “Vidas em Jogo” (1997) e “Clube da Luta” (1999). Assim como Alfred Hichcock, ele não precisa mostrar muito para que o publico sinta verdadeiro asco em algumas situações.

Analisando os aspectos técnicos, Fincher usa muito o vermelho para realçar a violência presente em alguns ambientes, nas fotos abaixo, podemos notar o uso da cor em ambientes que estão diretamente relacionados com o assassino, desde o carpete do corredor de seu apartamento (assim como a porta do imóvel) à sua roupa depois de preso, contrastando os tons escuros e apáticos das roupas de todos daquela cidade, assim o diferenciando ainda mais de todos ali. 
















É curioso ver como o numero 5 é insistentemente mostrado durante todo o filme, sempre vinculado ao detetive Mills, na lousa da delegacia em que são listado os 7 pecados, o 5° pecado é a “Ira” (tradução de Wrath em inglês) e quem comete o crime relacionado a esse pecado é justamente o próprio Mills, não acredito que possa ser considerado pista e recompensa, pois nos é mostrado muito sutilmente.


Na segunda foto, vemos que o numero da nova sala de Mills é “714”, onde podemos fazer uma divisão que ficaria: 7 (pecados) e 1+4 (igual a 5, 5°pecado).



Já na próxima foto, podemos ver que o numero do apartamento do detetive é “5A”, mais uma vez evocando o número 5 e o “A” que poderia significar “Angry” (Raiva) que é o sinônimo de “Wrath”.


Depois de um interrogatório, também podemos ver que o numero da sala em que Mills se encontra esgotado é mais uma vez o“5”. 


O posicionamento de câmera é muito importante para determinar a importancia de cada personagem em determinado momento, ao se revelar e se entregar, John Doe é mostrado com a camera de baixo para cima, o que signica que ele domina o momento.


Mais tarde, John Doe se declara culpado com a condição dos dois detetives o acompanharem até determinado local, onde provavelmente encontrariam mais duas vítimas. No caminho, Mills inicia uma conversa com Doe, para tentar entender o que se passa em sua cabeça. Nesse momento, o detetive desdenha do assassino, que ouve a tudo passivamente, a camera focaliza Mills através das grades de proteção do carro, as grades estão embaçadas, dando total enfoque no rosto de Mills e ao mostrar o assassino, a grade está bem delineada, colocando Doe em posição inferior, após Doe começar a explicar seus ideiais, Mills fica sério e o vemos através de uma grade já bem definida, invertendo os papéis.


























Um pouco adiante, quando Mills descobre o que havia no pacote entregue à Somerset, a visão que temos é de uma Handicam (camêra na mão), a imagem tremida nos coloca dentro do turbilhão de confusos sentimentos que Mills está sentindo naquele momento, ao mesmo tempo, ao focalizar Doe,  o close nos passa a calma do assassino, que impassivo, comemora o desfecho de seu engenhoso plano. Essa é uma das cenas mais angustiantes que tive a oportunidade de assistir, e ao final o alívio é fato, porém acompanhado pela sensação incomoda de saber que o mal venceu novamente.


Além das ótimas atuações, desde o novato Pitt ao mais experiente Morgan Freeman, Seven se beneficia pelo roteiro amarrado e envolvente, mantendo a atenção do expectador até seu derradeiro final. 


Vale 5 ingressos


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segunda-feira, 21 de maio de 2012

A Casa de Alice (2007)

Direção: Chico Teixeira
Roteiro: Chico Teixeira, Júlio Pessoa, Sabina Anzuategui e Marcelo Gomes
Elenco: Carla Ribas, Berta Zemel, Vinicius Zinn, Ricardo Vilaça, Felipe Massuia, Zé Carlos Machado
Origem: Brasil
Ano de lançamento: 2007
Duração: 90 minutos


Há tempos sabemos que a “família margarina”, aquela família sorridente e feliz, tomando todos juntos o seu farto café da manhã, só existe mesmo em comerciais. Não apenas as pessoas não têm tempo para isso, dada a correria do trabalho/escola, como sabemos que essa felicidade excessiva é completamente falsa, pois as famílias normais estão recheadas de problemas e intrigas internas, o que às vezes chega a dilacerar o convívio diário. Contudo, essa “casca de perfeição” permanece presente tanto em nosso subconsciente – e vemos a necessidade de externar mentiras para encobrir a realidade – quanto nas produções cinematográficas brasileiras, que raramente abordam a família sobre um ponto de vista mais realístico e denso.

O filme de estréia de Chico Teixeira é bastante feliz, portanto, ao retratar de maneira firme e sincera as relações de uma família de classe médio-baixa paulistana, tanto internamente quanto frente a seus amigos/colegas. A mãe, Alice (Carla Ribas), é uma manicure de um salão de beleza no centro de São Paulo, cuja melhor cliente, Carmen (Renata Zhaneta), é uma mulher que insiste em ostentar sua “felicidade” conjugal, tal como ostenta seu carro importado, dado pelo seu marido. As duas conversam sempre sobre o dia a dia familiar, ambas tecendo comentários do quanto são “felizes”, “satisfeitas sexualmente” ou mesmo expondo suas intimidades.

O marido de Alice, Lindomar (Zé Carlos Machado), faz o mesmo ao conversar com um passageiro em seu táxi. Relata que está feliz com seu matrimônio, pois ao chegar a sua casa tem “comida quentinha e uma mulher cheirosa” lhe esperando. Contudo, uma das belezas do filme está justamente em nos revelar a “verdade” por trás destas conversas, não em tom pejorativo ou cômico, mas realista, nos deixando interpretar por conta própria. Alice na verdade está em um casamento que já não se sustenta mais, e Lindomar, machista típico, é ausente e infiel (aliás, pedófilo, pois trai com adolescentes). A relação dos dois não é de amor, nem de sexo, mas sim um convívio mútuo no mesmo espaço. Praticamente não há diálogos entre ambos, quem dirá demonstrações de afeto.

Isso se reflete na dinâmica entre seus filhos, que buscam viver suas vidas à revelia dos problemas de seus pais. Lucas (Vinicius Zinn), o irmão mais velho, é a imagem de seu pai, porém mais bruto e folgado. É michê nas horas vagas (uma inserção inútil, por sinal, que não é desenvolvida no filme, sendo para mim um ponto falho do roteiro) e briga constantemente com Edinho (Ricardo Vilaça) o irmão do meio. Este, por sua vez, faz pequenos furtos – em especial da avó protetora da casa, Dona Jacira (Berta Zemel) – para comprar os objetos que deseja e que não recebe de seus pais. Já Junior (Felipe Massuia), o irmão mais novo, se vê perdido em meio a este turbilhão familiar, buscando apoio e carinho nos irmãos, em especial o mais velho, com quem se identifica bastante.

O grande trunfo destes personagens é justamente a sua ausência de maniqueísmos ou mesmo de estereótipos. Lucas, apesar de grosso, em dado momento auxilia carinhosamente sua avó a deitar-se. Edinho rouba da avó, porém quando pode lhe devolve o dinheiro que havia furtado. Até mesmo Alice, mulher traída e desrespeitada pelo marido, também trai em busca de prazer. Ninguém é mau nem bom apenas; são todos pessoas como nós, e exatamente por isso nos identificamos com estes personagens, como se fossemos voyeurs de nós mesmos.

Essa sensação de voyeurismo se amplia com a linguagem naturalista empregada por Chico Teixeira. Em praticamente todos os momentos, temos a câmera parada em um canto de algum cômodo da casa, deixando com que os atores interpretem naturalmente à frente dela, com pouquíssimos cortes e sem maiores movimentações. O resultado tem um efeito duplo: salienta a proximidade com os personagens, criando uma ambiência familiar perfeita, natural e íntima (reforçada pelo estoicismo da direção de arte). Porém ao mesmo tempo, gera o tédio da casualidade, com longas cenas em que a única ação real é simbolizar a intimidade familiar e forçar o público a contemplar o cotidiano da casa. Vez ou outra, a câmera chacoalha, despertando-nos da invisibilidade da filmagem. Por vários momentos, senti que faltou zelo com o trabalho de gravação, independente do naturalismo empregado.

Outro aspecto salientado pelo estilo de Teixeira é a interpretação dos atores. Neste ponto, quem se destaca fortemente é Carla Ribas. A atriz desenvolve sua Alice de maneira impecável, demonstrando durante toda a película uma emoção e complexidade que merecem muitos aplausos, desde os pequenos detalhes (o olhar sofrido, por vezes distante, pensativa), até a incrível cena final, em que aparta a briga de seus filhos (cena esta sem cortes), em um acesso de histeria que me fez ficar sem respirar ao longo de toda a cena.

A Casa de Alice é, assim, um filme naturalista, intenso e contemplativo. É um filme de personagens, que brigam, mentem, sorriem, choram, na tentativa em vão de dizer a si próprios que tudo vai bem, mesmo quando a realidade se apresenta de maneira inversa. Na vida, fazemos isso o tempo todo, sem perceber, e isso nos é tão comum que no filme vemos que aquelas cenas qualquer um de nós poderia protagonizar. Ao terminar dos seus 90 minutos, sentimos que assistimos a nós mesmos e – satisfeitos ou não com essa sensação – é essa a missão a que Chico Teixeira se propôs.

Vale 4 ingressos.

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Veja também a crítica de Rodrigo Serrano.