quinta-feira, 30 de maio de 2013

Perras (2011)

Nome Original: Perras
Direção: Guillermo Ríos
Roteiro: Guillermo Ríos
Elenco: Claudia Zepeda, Karen de la Hoya, Scarlet Dergal 
Origem: México
Ano de Lançamento: 2011
Duração: 100 minutos



*Contém Spoilers*

A adolescência é uma fase extremamente complicada de nossas vidas, em que nos vemos lidando com nossos hormônios em ebulição ao mesmo tempo em que queremos conseguir ser aceitos perante os outros adolescentes. É o momento em que os "primeiros" surgem: primeiro porre, primeira transa, primeiro rock 'n roll... e - talvez por conta disso mesmo - é uma época que muda de tempos em tempos. Tenho certeza de que a adolescência de meus pais foi diferente da minha e será diferente da dos meus filhos.

É este o tema principal de "Perras" um filme de Guillermo Ríos, um inexperiente diretor mexicano, que arrisca em seu primeiro longa a adaptação deste roteiro que era de uma peça de teatro. O filme conta a história de 10 garotas, entre 14 e 15 anos de idade, que se veem presas em uma sala de aula, após um acidente muito terrível acontecer na escola (que só vamos descobrir o que é no final do filme). Essas garotas vão discutindo entre si, acusando umas às outras de terem sido responsáveis pelo tal acidente, e ao longo desses diálogos, a película explora a vida e as experiências de cada uma delas.

É justamente ao explorar esse passado de cada uma das personagens que o filme tem seu grande acerto. Cada garota possui um estereótipo diferente, que é reforçado com base em suas revelações, narradas pontualmente. Há a "Gorda", a garota cuja sonho maior é ter seus amigos unidos em uma festa de 15 anos, na qual sua irmã representará a ela em uma dança ao som da música da Thalia. Há a "Vagabunda", cuja personalidade principal é absolutamente sexualizada e pervertida. Há a "Sonhadora", que tem uma mãe alcoólatra, porém tem como meta ir bem na escola para poder ter a chance de ver sua mãe nas suas férias. E como esses, há vários outros estereótipos, que são lentamente explorados pelo filme. Cada adolescente é como é: com seu propósito secreto, porém borbulhando de curiosidade lasciva e da tentativa de auto-afirmação.

Um dos melhores exemplos disso, a meu ver, é a personagem da "Amiga" da "Manchada" (a "Vagabunda"), cujas falas são quase todas repetições das falas da amiga ou então questionamentos sobre a vida da "Manchada". Ela é para mim, um estereótipo ideal de uma adolescente cuja personalidade é fraca, porém a sua necessidade de auto-afirmação extrapola seu caráter e pudor: em determinado momento do filme, ela sai da roda de amigas que cantam uma música pervertida, sem querer cantar os versos que dizem "sou uma puta". Contudo, ela insiste em se colocar como "melhor amiga" da "Manchada", em uma ânsia de auto-afirmação e proteção típica da adolescência. Esse é, a meu ver, o acerto máximo do filme.

Além dos estereótipos firmados, é interessante notar a irresponsabilidade dos atos dessas adolescentes, que não parecem ter maturidade suficiente para dimensionar o grau de cada uma de suas atitudes. Desde o bullying, que aparece no tratar pejorativo da menina gorda ou da outra cega, até o princípio de bulimia, ao ver as garotas vomitando para poderem comer sem culpa, tudo parece ser feito sem se mensurar o que pode ser provocado em retorno. Essa imprudência tem seu ponto alto no final do filme, em que o aborto é lidado como algo corriqueiro e cujos perigos não são dimensionados (ou sequer conhecidos). A própria morte da amiga é lidada com uma banalidade perversa, sem muita noção da gravidade da situação.

Neste sentido, o sexo é tratado com a mesma banalidade, com a qual cada garota pode transar com quem bem lhe aprouver, se aproveitando da completa inconsequência da adolescência para tal. Por outro lado, essa ânsia de "sexualizar" a cada uma de suas personagens, faz com que o longa extrapole na perversidade, se perdendo na banalização exagerada do sexo pueril. Em determinado momento do filme, uma personagem relata em detalhes a experiência com um senador. Contudo, a película insiste em expor visualmente por tempo demasiado os mesmos relatos da garota, não apenas banalizando a sexualidade no filme, como mostrando a ineficiência do diretor ao contar uma história (o cinema não precisa de um relato visual e narrativo ao mesmo tempo!). Ao mesmo tempo, a excessiva repetição sobre o tema da sexualidade faz com que a película pareça não ser sobre adolescentes, mas sim sobre "sexo (ou perversão) na adolescência". Infelizmente isso quase destrói todo o filme, o que novamente mostra a falta de habilidade do novato diretor.

Se o filme não é destruído por essa obsessão pelo sexo, é porque é salvado pela bela atuação das atrizes-mirins, que encarnam seus personagens de maneira convincente e realística. Ao mesmo tempo, a fotografia distingue de maneira competente os flashbacks do momento atual, tingindo o último com um tom azul torturante. A montagem também é bastante competente, com transições fluídas entre o "acidente" e as narrações de cada personagem. Uma pena que o diretor insista em inserir uma animação no meio do filme, sem qualquer propósito, ou sem qualquer beleza.

Perras é, assim, uma película capaz de trazer algumas reflexões e discussões ao longo de seus 100 minutos, porém que com seus excessos e amadorismos destrói o ânimo do espectador. Como a adolescência, há momentos sem sentido e momentos de inteligência, e depende de cada um escolher qual cena guardará em sua memória após tudo acabar. Não se deve esperar o fascínio de uma obra-prima adulta, nem a inocência de uma visão pueril. Aliás, melhor esperar o que se espera da adolescência: um amadorismo que nos intriga fugazmente.

Vale 3 ingressos
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Veja também a crítica de Rodrigo Serrano

4 comentários:

  1. Brunão, muito boa análise.

    Por conta de sua indicação, assisti ao filme ontem e achei que os pontos altos da pelicula são realmente os flashbacks muito bem filmados, a montagem do filme, e o final, muito bem bolado, além do lance da menina que embora fosse cega, enxergava tudo que acontecia ao seu redor, muito mais profundamente que mais que suas amigas.

    E digo que se não tivessem aqueles numeros musicais "PATÉTICOS", eu teria gostado mais do filme.

    E tmb gostaria de salientar a fotografia, muito fria na sala de aula, determinando o clima pesado que elas estavam passando naquele momento, chega a incomodar de tanta tensão, ainda mais por não saber o que havia acontecido para que elas estivessem alí.

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  2. Concordo com o Rodrigo...eu daria dois ingressos...porque não tenho fé que não seja a realidade das garotas desse misto de classes sociais...como eu disse me deu um certo medo, porque tenho uma filha chegando ai nessa idade...mas é só um filme...espero e desejo que assim seja.

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  3. Assisti esse filme por acaso e achei muito interessante! Trás muitas reflexões sobre muitos assuntos polêmicos e pouco discutidos. Acho que o filme na totalidade é muito bom. Porém tem partes que são descartáveis (como a maioria dos filmes).

    Procurei no Google mais sobre essa história e me deparei com esse blog. Gostei da critica, muito bem feita. Parabéns.

    O que me incomodou no filme foi a obsessão pela sexualidade e a idade das meninas (achei-as muito novas para ter o sexo já como uma coisa tão banal na vida e tão obssessiva).

    Vale 3 ingressos, por causa do amadorismo, da trilha sonora e do flashback da "sonhadora" que não se encaixa no resto do filme.


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